segunda-feira, 7 de julho de 2014

Um dia ruim, talvez

Ela estava de costas, talvez ninguém soubesse o motivo.

O filho a olhava de forma peculiar, única, amorosa. Mas ainda havia desdém ali.

Braços cruzados, olhar no ônibus, trajava uniforme de uma viação.

Ele usava o da escola, pois acabara de sair da aula.

Em tentativas sem sucesso, o garoto se esforçava, mas a mãe não reagia.

A provável decepção tomou conta dela, imobilizou-a.

Passavam pessoas, carros, o semáforo abria, para ela o tempo tinha congelado.

Para ele... Ele era muito novo para entender tudo aquilo.

A olhos nus, os dois eram desconhecidos.

A situação causava incômodo, entretanto aparentava ser recorrente.

De repente a apatia deu força a irritação. O mundo é ingrato.

Queria uma profissão melhor, uma inflação menor, educação.

Sonhava em casar – era mãe solteira -, foi abandonada.

Não vislumbrava um futuro digno para seu filho.

Estava indo para casa, no bairro mais violento da cidade.

Os pais estavam mortos. Não tinha grandes amigos.

Pensou: As coisas vão melhorar. Ligou a televisão, Neymar já era.

Talvez tenha sido um dia ruim. Ou talvez os dias sempre sejam ruins.